janeiro 29, 2026

Will Bank: um alerta para a governança e a confiança no sistema financeiro brasileiro

Por Fabrício Ribeiro — Administrador e Economista

Nesta semana, o sistema financeiro brasileiro testemunhou mais um capítulo preocupante: a liquidação extrajudicial da Will Financeira S.A., o chamado Will Bank, decretada pelo Banco Central do Brasil. A instituição, controlada pelo grupo Banco Master, pedia atenção desde a crise de seu controlador — liquidado em novembro de 2025 — e agora fecha suas portas definitivamente após fracassar a tentativa de manter suas operações sob regime especial e de viabilizar uma venda ao mercado.

Embora muitos entendam essa decisão como técnica ou burocrática, o episódio guarda lições profundas para administradores, investidores e para o próprio arcabouço regulatório brasileiro — lições que vão muito além das manchetes.

Impacto imediato: clientes e riscos sistêmicos

O Will Bank atendia milhões de clientes com serviços que vão de contas digitais a cartões, empréstimos e aplicações financeiras. Com ativos bilionários — cerca de R$ 14 bilhões em ativos e mais de R$ 6,5 bilhões em depósitos — a liquidação ativa agora o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que deverá ressarcir aplicações protegidas.

Para indivíduos e pequenas empresas, a cobertura do FGC (até R$ 250 mil por CPF/CNPJ) é um alento importante. No entanto, parte relevante dos clientes ficará exposta a perdas ou a processos de habilitação de crédito, o que pode arrastar incertezas por meses ou até anos.

O que a liquidação revela sobre riscos e regulação

A primeira reflexão que devemos fazer é sobre governança corporativa e transparência. Uma instituição financeira que cresce de forma rápida, atinge milhões de clientes e capta volumes bilionários precisa de controles internos robustos, práticas de compliance efetivas e uma gestão de risco que seja proativa — não apenas reativa. A ligação do Will com o grupo Master e os problemas que vieram à tona no conglomerado mostram claramente que a solidez de uma instituição é tão forte quanto a de seus controladores.

Além disso, a situação expõe fragilidades que podem existir na supervisão contínua de fintechs e bancos digitais, especialmente em um ambiente de inovação acelerada. A velocidade com que algumas instituições expandem seus serviços precisa ser acompanhada com igual rigor por parte dos órgãos reguladores, não apenas para proteger clientes, mas para resguardar a integridade do sistema financeiro como um todo.

Responsabilidade, confiança e o custo social do risco

Quando falamos como administradores e economistas, precisamos lembrar que a confiança é um ativo intangível, mas essencial para o funcionamento dos mercados. Uma liquidação — ainda que legal e dentro das competências do Banco Central — abala a confiança de pequenos investidores e correntistas que escolhem instituições digitais porque acreditam na promessa de praticidade, tecnologia e modernidade.

Se o custo dessa confiança for medido apenas pelo valor protegido pelo FGC, ainda assim fica claro que a percepção de risco se eleva, fazendo com que o consumidor se torne mais cauteloso ou até desconfiado dos “bancos do futuro”. E isso pode frear a inclusão financeira — justamente a promessa que fintechs como o Will Bank queriam cumprir.

O papel do regulador e a necessidade de educação financeira

O Banco Central agiu dentro de suas prerrogativas. A liquidação é um instrumento previsto na legislação para interromper operações que não se sustentam economicamente ou que apresentam risco para o sistema. Mas a decisão vem acompanhada de um momento oportuno para reforçar políticas de educação financeira que permitam ao público entender melhor riscos e garantias, e para que investidores saibam avaliar sua exposição a instituições menores ou menos estruturadas.

Ao mesmo tempo, é tempo de reflexão para gestores e empreendedores do setor financeiro digital: crescimento acelerado sem controles sólidos é um convite ao desastre.

Conclusão: um momento de aprendizagem para o país

A liquidação do Will Bank não é apenas mais uma notícia ruim — é um sinal de alerta. Ela nos lembra que, em qualquer organização, gestão responsável, governança sólida e compromisso com a sustentabilidade financeira não são luxos; são imperativos estratégicos.

Este episódio deve servir de aprendizado para o mercado, para os reguladores e, acima de tudo, para os milhões de brasileiros que confiam suas expectativas e recursos ao sistema financeiro. Só assim construiremos um ambiente mais estável, confiável e justo — que é o que todo administrador responsável busca diariamente promover.

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