Estudo do Reglab encomendado pela Zetta mostra que os bancos digitais impulsionaram a economia do país por meio da maior concorrência bancária e da redução de custos, o que elevou o consumo das famílias
A ascensão das Instituições Financeiras Digitais (IFDs) transformou a estrutura do setor bancário e se consolidou como um vetor de crescimento macroeconômico no Brasil. Um estudo produzido pelo Reglab, centro de pesquisa especializado no setor de mídia e tecnologia, encomendado pela Zetta, revela que a expansão dessas instituições foi responsável por um diferencial acumulado de aproximadamente R$ 1,6 trilhão no PIB brasileiro (a preços de 2026) entre os anos de 2016 e o primeiro trimestre de 2026. O montante gerado equivale ao PIB anual de países como o Chile ou a Colômbia.
Para mensurar o real impacto da digitalização financeira à economia, o Reglab utilizou um Modelo Dinâmico Estocástico de Equilíbrio Geral (DSGE), ferramenta amplamente utilizada por Bancos Centrais. A análise foi alimentada com dados históricos brasileiros para projetar um cenário contrafactual — ou seja, simulou um cenário no qual os bancos digitais não existiam.
“Os avanços dos últimos dez anos são resultado de escolhas regulatórias que apostaram na inovação e competição, como o Pix, o Open Finance e portabilidades. O estudo mostra que o ganho desta agenda não ficou restrito a quem migrou para instituições digitais. A concorrência gerou efeito direto em tarifas e juros no sistema inteiro”, destaca Eduardo Lopes, presidente da Zetta e um dos moderadores do Zetta Summit, evento em Brasília (DF) que lançou o estudo.
A análise apontou que, sem a atuação das instituições digitais no Brasil, o PIB do primeiro trimestre de 2026 seria cerca de 2,2% menor em termos reais. Os dados do estudo mostram ainda que os ganhos de eficiência da economia impactaram diretamente o orçamento das famílias e a atividade produtiva:
- Consumo das famílias: gerou um diferencial acumulado de R$ 982 bilhões no período;
- Investimento agregado: seria cerca de R$ 371 bilhões menor em um cenário sem a presença das IFDs;
- Economia com juros: cidadãos e empresas economizaram R$ 102 bilhões acumulados no crédito livre;
- Economia com tarifas bancárias: totalizou R$ 47 bilhões acumulados.
Pressão competitiva e benefício amplo
A pesquisa do Reglab identificou que o principal motor desses ganhos macroeconômicos foi o aumento da concorrência no setor, historicamente muito concentrado em poucos grandes bancos. A pressão exercida pela entrada das IFDs forçou as instituições tradicionais a reduzirem suas margens e custos transacionais.
“Um ponto relevante do estudo é a percepção de que o efeito positivo sobre o PIB gerado pelas IFDs não se explica somente pela migração de clientes para o digital. Ele se explica pela reação competitiva no segmento bancário tradicional, com revisão de tarifas, margens e taxas de juros, com benefício na ponta, para as famílias e para as empresas”, destaca Ricardo Barboza, economista-chefe da Zetta.
O diretor-executivo do Reglab, Pedro Henrique Ramos, reforça que a digitalização financeira tem um efeito estrutural. “É uma transformação que não aparece apenas como substituição de agências por aplicativos nem como simples conveniência para consumidores. Ao aumentar a eficiência do sistema financeiro, ampliar alternativas de crédito a pessoas e empresas, e pressionar margens bancárias, as IFDs influenciaram o consumo das famílias e o investimento por parte das empresas”, explica.
Evidência para políticas públicas
Os resultados indicam que agendas de estímulo à competitividade — como o estímulo à entrada de instituições no sistema financeiro, o avanço do Open Finance, a criação e o desenvolvimento do Pix, e as portabilidades de crédito, dados e salários — atuam como potentes instrumentos de bem-estar social e crescimento econômico.
Os dados do estudo revelam uma mudança estrutural no sistema financeiro brasileiro. A concentração de mercado passou a cair de forma consistente a partir de 2017, período em que começou a expansão das instituições financeiras digitais.
“Novos competidores digitais puderam se desenvolver com espaço para contestação, inovação e redução de custo. O desafio daqui para frente é desenhar regras capazes de preservar os ganhos econômicos e sociais da competição digital, sem ignorar os riscos que surgem quando crédito, pagamentos, dados e decisões automatizadas passam a operar em escala e velocidade maiores”, explica Pedro Henrique Ramos.
Sobre a Zetta: associação sem fins lucrativos fundada por empresas de tecnologia que oferecem serviços financeiros digitais, com 35 associadas.