maio 22, 2026

NR-1: pouco se fala da saúde mental da alta liderança

Atualização da norma lança luz também a executivos, CEOs e diretores submetidos à pressão contínua, jornadas excessivas e culturas de invulnerabilidade emocional

Por José Milton Castan Junior

O Brasil registrou, em 2025, cerca de meio milhão de afastamentos do trabalho relacionados à saúde mental, segundo dados oficiais do Ministério da Previdência Social. O número consolida um cenário que deixou de ser periférico nas organizações e passou a ocupar espaço definitivo nas agendas de gestão, governança e compliance corporativo.

Nesse contexto, entra em vigor no próximo dia 26 de maio a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), especialmente na parte relacionada ao Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), agora com foco explícito nos chamados riscos psicossociais. A mudança amplia o olhar sobre fatores que impactam diretamente a saúde emocional no ambiente corporativo, incluindo jornadas excessivas, metas inalcançáveis, conflitos interpessoais, baixa autonomia, assédio moral, comunicação tóxica e ambientes organizacionais disfuncionais.

Apesar disso, a maior parte das discussões sobre a NR-1 ainda está concentrada nos colaboradores operacionais e administrativos. Pouco se fala sobre um ponto igualmente sensível: a saúde mental da alta liderança. Executivos, CEOs e diretores também adoecem. E, em muitos casos, adoecem em silêncio. A rotina da alta gestão costuma ser marcada por pressão contínua, hiperconectividade, jornadas extensas, metas agressivas e pela chamada solidão decisória. Quanto mais elevado o cargo, menor tende a ser o espaço percebido para demonstrar desgaste emocional. Existe uma cultura corporativa ainda fortemente associada à ideia de que líderes precisam sustentar permanentemente uma imagem de controle, resistência e estabilidade.

O resultado é que muitos profissionais seguem trabalhando mesmo em estado de fadiga psíquica, exaustão emocional e perda gradual da clareza decisória. Permanecem operando, mas já com impactos relevantes sobre a capacidade reflexiva, a gestão de conflitos e a tomada de decisões estratégicas. E os reflexos desse processo não se limitam ao indivíduo.

Lideranças emocionalmente sobrecarregadas afetam diretamente a qualidade das decisões corporativas, o ambiente relacional, a segurança psicológica das equipes, os processos sucessórios e a sustentabilidade da performance organizacional. Uma liderança adoecida tende a contaminar culturas inteiras, ampliando ciclos de pressão, insegurança e desgaste coletivo.

Por isso, a saúde psíquica da alta gestão deixou de ser apenas uma questão humana ou assistencial. Tornou-se também tema de governança corporativa, gestão de riscos e sustentabilidade empresarial. A atualização da NR-1 provoca, assim, uma reflexão que vai além do cumprimento formal da legislação. Quem protege quem quando o risco recai sobre o próprio líder? Onde termina o ônus natural de posições de alta responsabilidade e começa o adoecimento ocupacional? Até que ponto a cultura da invulnerabilidade executiva ainda gera custos silenciosos para as organizações?

O maior valor desse debate talvez nem seja jurídico, mas cultural. Quando saúde mental entra efetivamente na pauta do boardroom, ela deixa de ser tratada como fragilidade individual e passa a ter legitimidade institucional. O recado transmitido para toda a empresa se torna claro: cuidar da saúde emocional não é sinal de fraqueza, mas parte da responsabilidade de liderar.

Empresas que desejam construir ambientes sustentáveis precisarão compreender que desempenho e saúde mental não são conceitos concorrentes, mas elementos interdependentes. A NR-1 chega justamente para ampliar essa compreensão sobre o que significa risco ocupacional nas organizações contemporâneas. E esse debate não pode parar na base da estrutura corporativa; ele precisa alcançar também quem ocupa as posições de comando, afinal, organizações emocionalmente saudáveis dificilmente serão construídas por lideranças emocionalmente exaustas.

Sobre o autor

José Milton Castan Junior é psicanalista especializado em saúde emocional de CEOs e C-Levels, com foco em tomada de decisão, desempenho executivo e liderança sob pressão. Reúne mais de 40 anos de experiência como executivo e 14 anos de atuação clínica em psicanálise, com mais de 300 líderes atendidos. Atua no suporte emocional e estratégico de altas lideranças, abordando temas como burnout, transição de carreira, fadiga cognitiva, isolamento e clareza mental. Já ocupou cargos de CEO e diretor industrial em grandes empresas e, atualmente, seu trabalho une experiência corporativa e escuta psicanalítica aplicada ao universo da alta gestão.

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