O Brasil reúne condições privilegiadas para atrair capital em um cenário global marcado por tensões geopolíticas, corrida tecnológica e busca por energia, alimentos e minerais, mas precisa enfrentar entraves internos que pressionam quem produz. A avaliação permeou as exposições do 25º Fórum Empresarial LIDE, realizado no Rio de Janeiro. Empresários, economistas e lideranças de diferentes setores colocaram no centro do debate temas como juros, carga tributária, segurança jurídica, infraestrutura, digitalização e produtividade.
Para Caio Megale, economista-chefe da XP, o cenário internacional abre uma janela relevante para o país: a demanda por energia, alimentos, petróleo, metais e minerais tem favorecido as exportações brasileiras, enquanto a expansão da inteligência artificial cria novas oportunidades, inclusive para data centers. “O mundo vê o Brasil mais como uma solução do que como um problema”, afirmou. O desafio, segundo ele, está dentro de casa: impostos e juros elevados vêm pressionando as empresas. “Por trás desses números positivos, nós temos duas distorções que vêm crescendo e que sufocam o setor privado”, disse.
A ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques foi ainda mais enfática ao tratar dos obstáculos enfrentados pelas empresas. “Está ficando impossível produzir nesse país para o grande, para o médio, para o pequeno”, afirmou. Daniella defendeu uma mudança para um modelo econômico baseado em produtividade e incentivo à oferta, e alertou que desequilíbrios fiscais acabam aparecendo na dívida pública, nos impostos, nos juros e no custo do crédito. “A gente precisa construir uma rampa de prosperidade e facilitar a vida, dar um choque de produtividade”, disse.
A transformação digital apareceu como outra frente decisiva para a competitividade. O CEO da TIM Brasil, Alberto Griselli, destacou que o setor de telecomunicações representa cerca de 3% do PIB e investe entre R$ 25 bilhões e R$ 30 bilhões por ano — a telefonia móvel já alcança todos os municípios brasileiros e o 5G chega a cerca de 70% da população. “O próximo desafio é passar de um Brasil conectado a um Brasil digital para aumentar desenvolvimento, produtividade e competitividade”, afirmou. Para o executivo, o avanço da inteligência artificial representa simultaneamente uma oportunidade e uma pressão sobre empresas, setores econômicos e a soberania dos países, o que exige modernização regulatória e previsibilidade.
Jean Paul Prates, ex-presidente da Petrobras, apontou infraestrutura, energia e indústria como pilares da “atividade construtiva real” da economia e alertou para a perda de capacidade industrial brasileira. “Nós nos desindustrializamos severamente”, afirmou. Segundo ele, o país dispõe de recursos naturais, mercado e capacidade empresarial, mas sofre com gargalos logísticos e falta de integração entre modais e regiões produtivas.
Os números apresentados pela Firjan reforçaram a dimensão econômica do desafio no Rio de Janeiro. O presidente da entidade, Luiz Césio Caetano, afirmou que um estudo da federação identificou nove novas fronteiras de desenvolvimento industrial com potencial de gerar cerca de 700 mil empregos e acrescentar R$ 210 bilhões ao PIB fluminense na próxima década — ao mesmo tempo em que entraves estruturais representariam um custo anual de quase R$ 95 bilhões às empresas instaladas no estado.
A segurança jurídica ganhou destaque também nas discussões sobre saúde e inovação. Pablo Meneses, da Rede D’Or, defendeu maior participação privada em pesquisa e desenvolvimento, condicionada à existência de regras previsíveis. Já o procurador-geral da República, Paulo Gonet, abordou o tema pela perspectiva institucional: “Não se fala, quando se fala em estabilidade, em engessamento do passado, mas sim em evitar surpresas desnecessárias”, afirmou.